Livro aborda casos de sequestro de bebês durante a ditadura militar

O jornalista paulista Eduardo Reina lança nesta sexta-feira (31) o livro Depois da Rua Tutoia, que aborda a violência praticada pelos governos militares contra mulheres grávidas que foram presas durante a ditadura e deram à luz na prisão, tendo seus bebês sequestrados por agentes da repressão e entregues a pais adotivos. O livro envolve personagens reais e de ficção sobre aquele momento histórico e as consequências para as vítimas e as suas famílias. Alguns desses casos aconteceram no Pará. O lançamento será na Universidade Federal do Pará, em Belém, às 9 horas.

Na ocasião, haverá debate sobre o tema “Histórias da ditadura, 53 anos depois do golpe”, promovido pela Faculdade de Comunicação da UFPA, juntamente com Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos e a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção Pará, além do lançamento do livro de Eduardo Reina. O evento conta com o apoio, também, da Comissão Estadual da Verdade do Estado do Pará.

Cárcere 

A história contada pelo jornalista no livro mostra o que aconteceu com a militante presa política que teve uma filha no interior do cárcere. Entre a realidade e ficção, desenrola-se a trama depois do que aconteceu na prisão no prédio do DOI-CODI, na Rua Tutoia, em São Paulo, quando a bebê foi arrancada da mãe e entregue a um poderoso e influente empresário paulista, que comandava um grupo financiador de movimentos de repressão, principalmente os clandestinos.

Reina cita um caso com profunda ligação com o Estado do Pará. É o de Lia Cecília da Silva Martins, nascida em 1974, na região Sul do Pará, palco da guerrilha do Araguaia. Filha de Antônio Teodoro de Castro, o Raul, ela foi deixada ainda bebê por um delegado e um soldado do Exército no Lar de Maria, em Belém, em junho de 1974. Essa instituição havia sido criada por um sargento da Aeronáutica. Lia foi adotada tempos depois por um casal que frequentava o Lar de Maria. Acabou registrada com a ajuda de amigos em cartório na cidade de Bragança. Só descobriu sua verdadeira história em 2009, quando viu uma foto numa matéria de jornal e se achou extremamente parecida com as pessoas. Essas pessoas eram filhos de Antônio Teodoro de Castro, o Raul, desaparecido desde 1973. Feito o exame de DNA ficou comprovado que ela pertence à família de Castro.

Outro caso, que não está no livro, porém com ligação com a capital paraense, já fruto da continuidade das pesquisas do jornalista, é o de Rosângela Serra Paraná, criada por uma família de militares no Rio de Janeiro. O tio-avô dela era tenente coronel do Exército, Manoel Hemetério de Oliveira Paraná, que foi diretor do Hospital Geral de Belém de 1961 a 1963. No livro Depois da Rua Tutoia, os personagens são baseados em histórias reais de pessoas que viveram, lutaram contra, sofreram ou apoiaram a repressão nos anos de chumbo. São as histórias de Margareth e José Eugênio, Theóphilo e Cláudia Prócula, e principalmente de Verônica, personagens centrais no livro.

A obra mostra, ainda, a vida de Margareth e José Eugênio, militantes de esquerda que lutaram contra o regime de opressão na década de 1960. Reina detalha que o casal criou uma célula de resistência no município de Mauá, Região Metropolitana do ABC Paulista, e trabalharam numa fábrica de porcelana. A mesma onde o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, foi funcionário naquela década. Junto com membros da Igreja Católica organizaram os operários e moradores pobres da região, porém foram localizados por agentes da repressão.

Margareth ficou presa no DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), localizado na Rua Tutoia, no bairro Paraíso, na zona sul da capital paulista, centro de prisão e tortura durante as décadas de 1960 e 1970. Daí o nome do livro.

Casos sem investigação

O escritor indaga por que, passados 53 anos do golpe militar de 1964, o Brasil não investigou a fundo essa realidade, como na Argentina, onde são registrados cerca de 500 casos e 149 estão solucionados. Outras indagações que levantará no debate: havia maternidades clandestinas, como nos países do Cone Sul, durante os Anos de Chumbo? Ocorreram quantos casos de bebês roubados de mães que lutaram contra a ditadura e entregues a empresários que financiaram o regime de exceção? E qual a razão de não ter havido investigação sobre esse doloroso, mas presente, tema da história brasileira, durante os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade? E se houve alguma busca, por que não foi levada adiante?

Segundo Reina, essas perguntas ainda estão sem resposta na história recente do Brasil. “Nenhum governo civil, após os chamados anos de chumbo, que foram de 1964 até 1985, quando a sociedade conquistou a redemocratização, ousou determinar uma investigação sobre o sequestro de bebês. Trata-se de uma questão ainda não resolvida da ditadura brasileira e na memória do país, principalmente quando o, atualmente, regime democrático, o Estado de Direito e inúmeras conquistas sociais estão ameaçadas por um golpe parlamentar, midiático e jurídico”, acentua.


Serviço - Lançamento do livro Depois da Rua Tutoia, nesta sexta, 31, às 9h, Auditório do Capacit, campus básico da UFPA, Guamá, Belém.

Fonte: G1

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